Corpo Crítico 2021

CORPO CRÍTICO 2021

ENTRE POLÍTICAS DA AMIZADE E ENSAIOS DA TRAIÇÃO

Um ponto de partida: poderia a crítica de cinema ser pensada a partir da noção de amizade? Se nossa época anda marcada pelo desejo do inimigo, pela fantasia de extermínio, propomos quatro encontros com o intuito de elaborar práticas capazes de trair o pressuposto de autoridade que ameaça o exercício desobediente da crítica. O que seria uma política da amizade com as obras? Inspirando-nos, talvez, naquilo que da amizade é desafio ético e político, generativo e dissensual, proximidade e distância.

 

Uma sugestão: pensamos que a noção de traição aplicada à crítica pode reavivar a dialética da crença e da dúvida em relação às obras – método de aprendizado, de provocação e de colocar-se junto às obras em perigo. Ao mesmo tempo, a traição desestabiliza um possível romantismo em relação ao nosso ponto de partida, isto é, as políticas da amizade. Imprevisível dança do contato, que, longe de procurarmos coreografar, nos permitiremos ensaiar juntas, em diálogo. Nesta oficina, pretendemos exercitar formas de reverberar, de discutir e de pensar a programação do FestCurtasBH 2021 ao longo de quatro encontros, cada um com 2h30 de duração, permeados por práticas de correspondências, diários, textos coletivos, ensaios, relatórios de debates e formas imprevisíveis de conversar.

condução: Ingá Maria Patriota e Fabio Rodrigues Filho

período: 27 e 29 de outubro, 10 e 12 de novembro

horário: 14h30 às 17h

local: Online

carga horária: 10h

vagas: 10 (50% reservadas para residentes do estado de Minas Gerais)

APRESENTAÇÃO

 

Se, como escreve Achille Mbembe (2017), nossa época tem sido marcada pelo desejo do inimigo, o desejo de apartheid e a fantasia do extermínio – armas comportamentais/estruturais do Estado-nação neoliberal –, nos perguntamos: a crítica de cinema poderia ser pensada a partir da noção da Amizade? Não se trata, aqui, de responder às políticas da inimizade¹ – atualizadas incessantemente na esfera macro e micro, onde o outro torna-se uma ameaça – com o seu simples avesso. Ao contrário, imaginamos que, no âmbito do fazer crítico e da relação com as imagens, sondar uma ética de amizade – mais do que concretizá-la, dada sua inerente dificuldade –, oferece-nos, quem sabe, um encorajamento e uma outra forma de relação entre imagens, pessoas, realidades e mundos.  Reconhecemos a amizade como um desafio dissensual e gerador, de modo que nosso interesse nessa proposta parte menos do “tornar-se amigo” do que nos inspirarmos por tal política.

A amizade é, no fundo, um “programa vazio”, nos lembra Francisco Ortega, “uma metáfora do aberto que pode substituir a família em nosso imaginário afetivo”. Ou, ainda, como diz Giorgio Agamben: a amizade não é uma propriedade ou uma qualidade de um sujeito. De difícil representação e tradução, a amizade é um existencial, mais que um categorial: “(...) é atravessado todavia por uma intensidade que o [nos] enche de alguma coisa como uma potência política.” Nessa proposta, não há um exemplo ou uma resposta, mas uma hipótese a ser experimentada na crítica cinematográfica.

Aqui, pensamos a traição enquanto um método de aproximação. Uma maneira de manter viva, na relação com as obras, aquela dialética da crença e da dúvida, para que os filmes não sejam automaticamente colocados na sala dos inimigos ou no quadro de membros do “nosso clube” de princípios. Para que as obras, assim como a análise, compareçam na sua forma indômita, num faz que vai reorientador da imprevisível dança do contato. A política da amizade nessa proposta não seria sinônimo de concordância, mas implicação de desafio. De dar o mote, pegar na deixa e desdobrar a aposta.

De caráter teórico-prático e experimental, esta oficina se divide em quatro encontros virtuais e convida as participantes a ensaiar e criar exercícios críticos sobre/com/a partir de filmes programados no FestCurtasBH de 2021.

[1] “No quadro de rivalidade mimética exacerbada pela guerra contra o terror, dispor – de preferência de modo espetacular – do seu inimigo tornou-se uma passagem obrigatória na constituição do sujeito e na sua entrada na ordem simbólica do nosso tempo.” (MBEMBE, 2017, p. 81).

REFERÊNCIAS

 

Políticas da inimizade, Mbembe (2017)

O amigo, Giorgio Agamben (2007)

https://chaodafeira.com/catalogo/caderno10/

Por uma ética e uma política e uma política da amizade, Francisco Ortega (2004)

https://chaodafeira.com/wp-content/uploads/2020/07/cad109-por_uma_etica_e_uma_politica_da_amizade-francisco_ortega.pdf

Ingá é redatora da revista Cinética, na qual tem se dedicado a investigar outros formatos de crítica, como a escrita coletiva e o vídeo ensaio. Fez a cobertura escrita dos festivais Janela Internacional de Cinema do Recife, Fronteira Festival do Filme Experimental e Mostra de Cinema de Tiradentes. Atuou facilitando oficinas de vídeo nos projetos Fazer o mundo, Fazendo o vídeo, Inventar com a Diferença, Vídeo nas Aldeias e Festival do Filme Anarquista da Kasa Invisível. Ministrou oficinas de crítica em parceria com o CachoeiraDoc e o IMS/Cinética. Programou sessões cineclubistas em parceria com o coletivo Catucá e integrou a comissão de seleção de curtas-metragens no XII Janela Internacional de Cinema do Recife. É natural de Olinda (PE), integra a brigada de educação do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem-Teto (MTST) e estuda licenciatura em cinema e vídeo na UFF.

Fabio Rodrigues Filho trabalha na crítica, programação, pesquisa e realização em cinema. Mestrando em comunicação na UFMG, graduou-se na mesma área na UFRB. Participou de comissões de seleção de festivais, mostras e laboratórios, a exemplo do FestCurtasBH (2019 - 2021), Diáspora Lab (2018) e do IX CachoeiraDoc (2020), festival junto ao qual vem contribuindo ao longo dos últimos anos. É membro dos grupos de pesquisa Poéticas da Experiência e do Áfricas nas Artes. Colabora com textos em sites, revistas e publicações diversas, a exemplo da Revista Cinética e do blog pessoal Tocar o Cinema. É também cartazista e cineclubista.