Aqueles que olhando falam juntos

Em Linha Cruzada (2021), Diógenes Muniz, nos propõe um desvio de atenção. Se, para muitos, é conhecida a cena onde Jair Bolsonaro declara seu voto no decurso do golpe de 2016, saudando o responsável por torturar a ex-presidente Dilma Rousseff durante a ditadura militar, o filme retoma as imagens da TV Câmara atentando-se agora aos outros rostos que compõem o quadro. Ali, houve o momento para que cada um desses que preenchem o plano de fundo, com suas feições e movimentos inquietos subissem ao palanque, emitindo breves palavras que marcaram seus posicionamentos. No entanto, diante de uma fala que rememora em tom de elegia a violência extrema sobre um corpo, aqueles que se reuniram ao redor são solicitados agora a aparecerem sob outra luz: onde poderiam esmaecer como figurantes, são agora perscrutados por um trabalho de montagem que acredita na força expressiva da fisionomia para convocar a densidade do que está para além do protocolar sim ou não.


No momento em que escolhe não reiterar Bolsonaro como centro do evento, Linha Cruzada desacelera os quadros por segundo e observa os deputados e suas reações como um campo de forças de onde emanam figuras complementares, que alimentam e reverberam o discurso emitido por uma só boca. Há algo de antigo na estratégia, enraizada em algumas das primeiras experimentações cinematográficas, de decompor e reduzir a velocidade desse evento de pouco mais de 1 minuto. Aí se cruzam o desejo empírico-científico de compreensão do movimento e a vontade psicológica de flagrar o subterrâneo da expressão humana, os pormenores por meio dos quais emergem manifestações sintomáticas, insuspeitas. A estratégia é apropriada para um filme que, por seu próprio título, sabe que para muitos presentes, mas também para os espectadores, um limite era usurpado. Essa transgressão, no entanto, nada tem de potencial emancipador para a comunidade política, operando antes como uma volta truculenta de um reprimido, que nunca cessou de se fazer vigoroso no interior dos círculos militares de onde vem Bolsonaro.


Aquele que discursa, ocupando o centro da cena abjeta, é visto apenas em detalhes - suas mãos, parte do seus cabelos, etc. O processo de fragmentação de sua figura sugere que aqueles que se colocam ao seu entorno, fazendo um contorno, estão ativamente contribuindo para construir o terror do momento. Afinal, na sucessão desses recortes, encontramos as partes que, cada qual a sua maneira, vão fundar a ocasião e a possibilidade de emergência de um corpo bolsonarista.

Uma das distâncias fundadoras de Linha Cruzada é aquela entre nós, espectadores da remontagem, e eles, espectadores do púlpito, que autorizam o desenrolar dos acontecimentos e a emergência desse corpo sem qualquer intervenção. Pois, intervir é o que faz o filme diante do qual nós estamos, e não as imagens originalmente transmitidas pela televisão.

Diante daqueles rostos, expõe-se um imaginário e uma dramaturgia da política institucional que sustenta a cena do golpe. Dificilmente antagonísticos, compondo, na verdade, uma mesma trama, eles ainda assim merecem ser matizados. No rol de políticos, as figuras familiares emergem, como no primeiro plano da sequência, onde o sorriso do homem é intercalado por uma expressão entre a admiração e a plena concordância revelada por intermitentes acenos de cabeça direcionados ao palanque. O sorriso reemerge ao fim. Se, exceto por esses dois momentos, o rosto pareceu querer se conter em uma pose altiva, de perfil e com o queixo projetado para cima, os olhos não cessaram de piscar e desviar seu foco de atenção, indo inquietos de um lado para o outro do quadro, cientes de serem vistos e buscando controlar as informações visuais. Em quase tudo, isso contrasta com a próxima figura, menos jovial, de olhos fundos irreconhecíveis, como que submersos em um transe de onde o restante de sua fisionomia também não sai, exceto pela boca que se abre por um instante dando espaço para que sua língua molhe os lábios secos de réptil. Logo ao fundo, um outro rosto, em um corpo de baixa estatura, esgueira buscando o melhor ângulo. Primeiro à esquerdado serene moribundo em primeiro plano, e depois à direita, com seus olhos estreitados se esforçando para ver por sobre os escalpos de outros homens.


Ele, por fim, cede e sua resignação nos apresenta ao personagem mais indecifrável do todo, que se postava logo atrás. Um homem de boca aberta e olhos voltados para cima, em um misto de alegria e êxtase. Toda a dramaticidade de sua expressão nos escapa quando a montagem retorna àquele mesmo personagem de olhos mortos. Dessa vez, seu semblante adquire uma estranha coloração branca quando o flash de fotografia desestabiliza o preto e branco da imagem, intensificando a sensação de que estamos diante de uma criatura próxima de um mundo espectral, impassível diante dos acontecimentos turbulentos do mundo. Para ele, não parece haver nada a fazer ou ser dito, pois tudo é como precisa ser. Os rumos já parecem inevitavelmente dados. Daí vem sua contribuição apática ao acontecimento – e não por isso menos assombrosa. Nesse estudo de reações, o plano de maior duração é deixado para o fim. Um rosto, primeiro impassível, começa a esboçar algo como um incômodo que rapidamente converte-se em sorriso de desdém e malícia. As palavras parecem lhe atravessar como se viessem de um menino travesso, que ao extrapolar todo limite está fazendo uma piada que impressiona pela sua ousadia – não é isso, em primeiro lugar, o que trouxe Bolsonaro à atenção de tantos meios de comunicação? O impacto precisa ser dissimulado nesse jogo de máscaras, mas de todo modo se denuncia pelas sobrancelhas caricatas e pelos acenos negativos de cabeça. O rosto, enfim, repousa em expressão similar à inicial, uma espécie de nada que momentaneamente se comoveu diante da sugestão do, até então, impronunciável.

Linha Cruzada, afinal, é capaz de flagrar a abrupta vazão dessas energias represadas que, como saindo de um porão, encontraram naquele momento seu lugar ao sol. Ao observar a espetacularização da política na sua mais íntima relação com o terror, o filme abre caminho para que possamos olhar para essas imagens sem nos afundarmos com elas na indistinção própria do processo de fusão ao corpo político bolsonarista.

 

este texto foi produzido como parte da oficina Corpo Crítico – Entre Políticas da Amizade e Ensaios da Traição, ministrada por Ingá e Fabio Rodrigues Filho, durante o 23º FestCurtasBH.