• por Helena Frade

DOZE (Clara Tempone, 2019)

Clara, o que acontece quando um filme soluça?

O que é esse troço que estamos fazendo?

Porque estamos fazendo o que estamos fazendo?

Como conversar com nossas pedrinhas miudinhas mais internas e vacilantes?

Como se comunicar com àquele que, por algum momento, encaramos como incomunicável?

Seria o filme uma das maneiras de viver essa conversa infinita?

Ou, ainda, seria a ilha de edição uma forma privilegiada para dar contornos outros a saudade daquele que brinca, sorri e toca guitarra?

Você acha que, uma vez que é passado, o momento está morto no campo material, mas permanece vivo no campo virtual-codificado do registro e da memória?

Ou a questão não é tanto o meio, mas sim o encontro, o gesto e o acontecimento?

O quanto tem de sutileza no barulho que ensurdece, por volta do minuto 4?

O quanto tem de perturbador na delicadeza do som onírico, por volta do minuto 6?

Trata-se de uma conversa infinita porque é consigo mesma, sobretudo?

Como é isso de escrever você, em você?

Como é isso de escrever o outro, em você?

É possível que o outro te olhe de dentro, estando de fora?

Você acha que a mesma intimidade que te permite, te tolhe?

O filme é mais uma forma de passar por ou viver/morrer com?

Esses motivos se anulam ou eles coexistem em um mesmo corpo?


...


Escrevo sobre linhas móveis um punhado de palavras mais ou menos desorientadas.

Acontece que fiquei inquieta e tropecei nelas, as perguntas.

Então vem emoção, vem saudade, vem aperto, vem cambalhota.

Vem contração involuntária de um ou vários músculos.

Vem isolada ou continuamente, vem dolorosa ou com alguma graça.

Vem um jeito de tornar público, de mexer no todo, de falar da parte.

É tipo quando o céu toca o mar, aquele instrumento musical aquoso, sabe?!

Então erraríamos todas as notas musicais para que pudéssemos brincar de desentendidos, com a intimidade de quem, a cada vez que chega, encontra uma maneira de estar.


. . .


A dimensão do arquivo enquanto fragmento de morte ou fragmento de vida embaralha minha mente de maneira oceânica. Imagina só, aquela imagem, pequenininha, imersa em movimento. “Ver, desver, rever; ver, desver, rever”, disse a onda. Porque existe um pula-pula entre o cavucar e o deixar quieto. Então o filme esconde, revela, emaranha, descobre. E bate cáááá no fundo.


Progressivamente, o curta-metragem vai delineando a dor acionada pela saudade do irmão mais velho e alternando o tom do experimento: a montagem, que envolve filmagens e fotografias de arquivo, autorretratos, textos e desenhos, hora soa como a escrita de uma emoção caótica, hora flutua em forma de devaneio. Através de uma perspectiva em primeira pessoa, o filme parece se (des)configurar a partir da vulnerabilidade, relacionada a um contato íntimo com a própria história.


Talvez Doze (Clara Tempone, 2019) seja um convite àquilo que se apresenta enquanto processo. Talvez por isso o seu ponto de partida seja dizer através do silêncio sob um VHS trêmulo. Talvez por isso, escorra no subtexto: “você pode me ouvir? não precisa opinar”. Demanda entender desde o princípio que essas são palavras subjetivas e que metáfora ou resposta alguma traduz aquilo que não se esgota. É desejar que um filme não exista, mas perceber com afeto a emergência do seu existir.

este texto foi produzido como parte da Oficina Corpo Crítico – Experimentações Críticas por um Cinema Implicado, ministrado pela crítica Kênia Freitas, durante o 22º FestCurtasBH.