Temos todas a ganhar em levantar a cabeça, todo mundo, todos os oprimidos da terra. 

Carole Roussopoulos

Aqui, nenhuma partitura escrita de antemão, antes um improviso, uma variação contínua, a do próprio vivo. A vida é artista, de modo que as verdades só fazem sentido se restituídas a esse movimento perpétuo de criação. Eis porque Édouard Glissant, esse grande bardo da Martinica, que cantou as paisagens do arquipélago, declara que “nada é Verdadeiro, tudo é vivo”...

Dénètem Touam Bona

Diante da radical impossibilidade do encontro de corpos em presença, o que consiste no coração, no sentido mesmo, de um festival de cinema – do mundo, de que o cinema é uma das expressões – , a questão que logo se impôs foi: como aproximar por meio de tecnologias que são, antes de tudo e paradoxalmente, de distanciamento? Como criar espaços de convergência, experiências de acolhimento, debate, embate? A resposta não está dada e nem se pode pretender estabelecê-la em definitivo, mesmo após meses de eventos de cinema em todo o planeta propondo desenhos variados para possibilitar a persistência dos encontros, agora à distância, com e através das imagens e sons. Pois se estão sendo criados espaços que têm seu calor como confluência possível no agora – e algo se aprende e se lega dessa experiência remota – é preciso manter-se alerta e firme na defesa dos espaços materiais que afirmem o encontro em presença, que reiterem a vivência coletiva das formas fílmicas, dos espaços de conversas e trocas, de forma cada vez mais ampla e acessível. Que o legado dessa situação de exceção (assim queremos crer) e a continuidade de parte das atividades virtuais sejam sempre no sentido de maior alcance e maior inclusão de quem historicamente possui menos acesso aos espaços e à fala. E maior escuta de todes, em particular por quem tem ocupado predominantemente as instâncias de enunciação.

Nesse contexto que tanto nos desafia, o 22º FestCurtasBH insiste em celebrar a força do cinema como lugar de afirmação da vida, por meio dos filmes, performances, textos, criações gráficas, dos múltiplos encontros que se forjam com eles, a partir deles, alimentando-se mutuamente e de forma particularmente pujante e necessária, num momento em que as vidas (humanas e mais que humanas) se expõem em toda sua vulnerabilidade, umas tragicamente mais que outras. Festival tramado a muitas mãos, de uma pequena equipe maravilhosamente empenhada e inspirada que gingou habilmente frente aos obstáculos multiplicados pelo cenário de emergência sanitária. De curadoras e curadores que sabem que o trabalho árduo e mágico da programação só acontece, de fato, com uma dedicação generosa às trocas muito vivas junto aos filmes, criando assim uma curadoria como lugar de proposição, intervenção na história, formação, invenção, oferta. De artistas que nos confiaram seus filmes ou que conceberam novos trabalhos especialmente para o 22º FestCurtasBH, como Bixarte, Fabiana Brasil e Felipe Oládélè. Da crítica, curadora e pesquisadora Kênia Freitas, que tem feito contribuições fundamentais nos últimos anos do Festival (e para além dele) e que, pelo segundo ano consecutivo, oferece a oficina de crítica Corpo Crítico. Desta vez sob o título «Experimentações Críticas por um Cinema Implicado», propondo um trabalho de formação crítica que considera fortemente o contexto de exibição e trocas com e sobre os filmes no nosso atual contexto pandêmico político. E de muitxs convidadxs que contribuíram brilhantemente com textos e participações em debates.

O 22º FestCurtasBH apresenta ainda uma retrospectiva em homenagem à franco-suíça Carole Roussopoulos, cineasta militante com uma vida dedicada a várias lutas, sobretudo feministas, mas também operárias, homossexuais, anti-fascistas, anti-racistas e anti-imperialistas. Realizadora gigante de um cinema contra-hegemônico e irreverente que nos ensina, em sua prática, a solidariedade das lutas e nas lutas, nas quais se engajou ao longo de 40 anos de maneira bastante efetiva (em termos políticos, institucionais, legislativos). E com muita modéstia, coerente com um percurso que sempre reivindicou seu caráter coletivo, em contraponto à primazia das políticas autorais.


Exclusivamente online em 2020, o FestCurtasBH não perde no entanto o estreito elo com sua morada, inaugurando a plataforma de exibição cineHumbertoMauro/MAIS. Casa virtual do Cine Humberto Mauro, cinema público que há mais de quatro décadas abriga uma pulsante cinefilia, a plataforma seguirá como um braço da sala física mesmo quando esta puder, enfim, voltar a acolher sua colorida audiência.

Ana Siqueira,Bruno Hilário e Matheus Antunes
Coordenação FestCurtasBH