23ºFestCurtasBH - Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte

• O FESTIVAL •

 
 
 

Pois construir uma fuga não é ser posto para correr. Pelo

contrário, é fazer o real escapar, operar nele variações sem

fim para contornar qualquer tentativa de captura.¹

Por seu percurso vertiginoso, o cipó incarna o poder de

"atravessar" e ser alimentado pelo que atravessa (e vice versa).²

Dénètem Touam Bona

 

O FestCurtasBH chega a sua 23ª edição multiplicando-se entre sua casa virtual, o cineHumbertoMauro/Mais, e sua morada original, o Cine Humberto Mauro e espaços do Palácio das Artes. Um retorno tão exultante quanto cauteloso, num contexto sanitário que ainda exige atenção e cuidado recíproco. Voltar a seu lugar de origem e constituição é também, e principalmente, reencontrar, face a face, seu público, o espaço material e simbólico da sala de cinema, onde o tempo se suspende e uma comunidade provisória é formada, com desenlaces imprevistos. Se as telas individuais nos permitiram manter relações pessoais, profissionais, educacionais, se fizeram persistir certa experiência de cinema a despeito das restrições pandêmicas – e seguirão possibilitando a aproximação de distâncias por vezes inevitáveis–, voltar para a vivência coletiva do cinema reafirma também a força inigualável do estar junto, em presença.

E para celebrar esse horizonte que se abre, o 23º FestCurtasBH apresenta uma programação, sempre inventada a muitas mãos, ancorada no presente, atenta às experiências históricas e aos caminhos em construção no porvir. O sempre exigente e surpreendente trabalho da programação foi realizado com dedicação inspirada e infalível pelas comissões de seleção, assim como pelas curadoras e curador convidados a participar da mostra Cosmopoéticas do (in)visível: Anti Ribeiro, Tatiana Carvalho Costa e  Wally Fall. Nascida do encontro com o pensamento do filósofo Dénètem Touam Bona, a mostra Cosmopoéticas do (in)visível fez vibrar sua proposta em grande parte do 23º FestCurtasBH. Com a colaboração sempre generosa de Touam Bona, a mostra apresenta filmes, ensaios traduzidos ou inéditos, debates, masterclass, mesa redonda, show do rapper e cineasta togolês Elom 20ce – gravado no Senegal especialmente para o FestCurtasBH – , caderno de imagens e exposição de artes visuais, irradiando a força das questões trazidas pelo filósofo em diferentes aspectos desta edição. A oficina de crítica chegou a sua quarta edição, desta vez com Ingá Maria Patriota e Fabio Rodrigues Filho, que trouxeram a  belíssima proposta nomeada "Entre políticas da amizade e ensaios da traição", contribuindo para uma formação crítica que não se assossega aos lugares acostumados, abrindo-se como campo de invenção formal e política, e produzindo uma preciosa fortuna crítica relacionada à programação do Festival.

Que nós, enquanto respondemos e resistimos aos desafios do presente, possamos aprender com o cipó, como pensado por Touam Bona, na nossa relação com o cinema e com mundo (de que o primeiro é inseparável) "em suas práticas de aliança e solidariedade, bem como os processos de hibridização e improvisação criativa". Sem esquecer, como ele nos lembra, que a criação de vínculos "só é fonte de liberdade se somos também capazes de fazer secessão, pois há igualmente elos tóxicos". Que possamos aprender com a sabedoria do cipó,³ que "por seu percurso vertiginoso incarna o poder de atravessar e ser alimentado pelo que se atravessa (e vice versa)".

Ana Siqueira, Bruno Hilário e Matheus Antunes

Coordenação do FestCurtasBH

 

[1] Cf. Cosmopoéticas do refúgio, de Dénètem Touam Bona (2020, p. 47).

[2] Cf.  Sagesse des lianes, de Dénètem Touam Bona, post-éditions (2021, p. 57; tradução nossa).

[3] Sagesse des lianes [Sabedoria dos cipós] é o título do último livro, recém-lançado na França, de Dénètem Touam Bona, e de onde se originaram as citações no corpo do texto.