MOSTRA PARALELA

• DESOBEDECER O FLUXO DA AUTOMAÇÃO •

PROGRAMA #1
104' | 16 ANOS

SINAIS DE DESOBEDIÊNCIA

 

Lorenna Rocha, Felipe Carnevalli e João Dumans

 

Nas dinâmicas intensas, exploratórias e violentas de trabalho, corpos humanos e mais-que-humanos são moldados e destruídos em duras rotinas laborais, reconfigurando suas temporalidades e seus modos de se relacionar com o espaço. Ao mesmo tempo, a brutalidade da repetição do cotidiano e a submissão perante a figuras de autoridade, atravessadas por questões de raça, gênero e classe, tornam o trabalho um terreno onde as dicotomias emergem como possibilidade de desobedecer o fluxo da automação.

 

Precariedade e técnica.

Agressividade e sutileza.

Contenção e excesso.

 

A coabitação desses estados extremos deixa escapar, aqui e ali, os sinais de resistência possíveis dentro de uma estrutura que extrai a vitalidade e o ânimo dos corpos. Aquilo que excede como respiração, olhar, fuga, aceno de mão ou cansaço torna-se o gesto que muda o percurso das atividades laborais, uma rebeldia que provoca, mesmo que brevemente, o reposicionamento das relações de poder. Que tais movimentos surjam por vezes de forma sutil não quer dizer que sejam desprovidos de violência: eles nos revelam as armas que os corpos humanos e mais-que-humanos acionam para tentar engendrar algum tipo de “quebra” no ciclo de exploração. 

Lata, de Alisha Tejpal, nos convida a acompanhar o abusivo trabalho doméstico realizado por uma mulher indiana. Entre a área de serviço e os corredores do edifício de classe média alta, os quadros e diálogos escancaram as diferenças de classe e gênero no ambiente laboral. Mas é nas furtivas ligações para a família, no descanso permitido pelos escassos momentos de pausa e no breve cuidado com o corpo em frente ao pequeno espelho da lavanderia que toma forma a silenciosa resistência a essa estrutura desigual. As relações entre trabalho e gênero se estendem e se complexificam em After the deluge, do realizador Eysner Vladimir, de onde somos convidadas a um espaço rural remoto, com ressonâncias bíblicas e diluvianas. Enquanto as mulheres, em um universo predominantemente masculino, confrontam a autoridade dos homens, a violência perpetuada por um sistema de produção industrial se faz ver na relação com os animais – que, apesar da constante iminência do abatimento, resistem de forma imprevisível. 

Em The peepul tree, de Sonja Feldmeir, os nocivos efeitos do sistema produtivista humano sobre os seres mais-que-humanos também atravessam as imagens da realizadora estrangeira em sua visita à Índia, onde ela captura a derrubada gradativa de uma árvore sagrada centenária por um grupo de operários. Se o não conhecimento da língua indiana impossibilita a comunicação direta da diretora com os sujeitos filmados, a potência das imagens nos revela a complexidade da situação por meio de sentimentos contraditórios que envolvem, ao mesmo tempo, a violência e a beleza do trabalho e do cinema. Por fim, em 60 hours, a impraticabilidade da comunicação não se dá pela diferença de linguagem, mas pela própria barreira edificada pelas duras jornadas de trabalho. Através da câmera de Saufert Ákos, acompanhamos um casal que nunca se encontra devido aos diferentes turnos de trabalho. Entrelaçados pelo silêncio e pela repetição do cotidiano laboral, pouco a pouco os corpos clamam por uma fuga impossível. 

No arranjo dos quatro filmes selecionados para a mostra Desobedecer o fluxo da automação, o tempo do trabalho é o tempo para a ação dos corpos. Do chão da fábrica, da área de serviço, da baia da fazenda e das esquinas da metrópole, a ilusão produtivista escancara os limites físicos dos corpos humanos e mais-que-humanos. Os gestos laborais e maquínicos, as desigualdades socioeconômicas e a pulsão ao progresso invadem os corpos, os espaços, as formas das coisas, as roupas, as cores e condicionam tudo: até as imagens. Mas, se as relações de trabalho vibram na materialidade dos filmes, os gestos mínimos de resistência (ou desistência) emergem em sua potência silenciosa: em meio à reincidência daquilo que se estrutura e excede como violência, há brechas para sutilezas que abrigam centelhas do desobedecer.