MOSTRA ESPECIAL | CURADORIA POR ANTI RIBEIRO

• COSMOPOÉTICAS DO (IN)VISÍVEL #1 •

Ouvem-se estrelas nos confins de Sonora

PROGRAMA #1
49' | 16 ANOS

Ouvem-se estrelas nos confins de Sonora

 

Anti Ribeiro

 

À sua frente, a rodovia encontrava uma outra rua larguíssima, formando um X. Do centro do cruzamento para lá, no entanto, não se via nada. Era como se houvesse uma linha e, dela em diante, uma escuridão espessa e viscosa tomasse conta de tudo. A escassa luz dos postes acesos que ficaram para trás terminava ali.

A escuridão cortava a encruzilhada ao meio.

Agachada no centro do X estava alguém que amolava uma faca numa pedra. Ao seu lado, outras facas se amontoavam perto de uma fogueira acesa. À esquerda, quase sumindo para dentro da escuridão, uma outra pessoa estava deitada, enfiada num saco de dormir e não se movia. Era como se estivesse morta. 

Ao redor delas, estavam vários objetos e estilhaços: mochilas, pedaços de vidro, lanternas.

A que amolava as facas percebeu uma nova presença e levantou o olhar, impressionada – mas não assustada. Ela, que chegava, esticou os braços e mirou o revólver, satisfeita ao ver o alvo levantar as mãos. Uma voz como uma risada gutural pareceu vir de dentro do breu, mais presente do que qualquer som jamais esteve. Ela pressionou o gatilho num rompante de susto, acertando a pilha de facas. A escuridão devolveu o tiro como uma explosão aguda, que fez a cabeça dela quase explodir numa enxaqueca momentânea. 

A amoladora de facas ficou de pé, ainda com as mãos erguidas. Parecia querer demonstrar que não representava perigo.

– Que porra foi essa?!

– Ela – a outra apontou com a faca para a pessoa enfiada no saco de dormir – está sonhando. A fronteira reflete tudo de volta pra gente.

– Não se aproxime. – ela ainda apontava o revólver para a outra, que se aproximava com uma faca em mãos – Não vou errar da segunda vez.

Tudo o que falavam era devolvido por seja-lá-o-quê que morava além daquela linha obscura na forma de sussurros indistinguíveis, que faziam tudo ao redor vibrar. O tilintar das facas amontoadas causado pela vibração era rebatido na forma de relinchos. 

A amoladora de facas largou a lâmina que segurava. 

– Pra onde você vai depois de me matar? – o breu devolveu um mantra, longo, agudo e ensurdecedor.

– Em frente – gargalhadas.

– E você sabe o que tem pra lá? – asas gigantes batendo, espalhando o ar por todo o lado.

Ela não disse nada. Seus pensamentos se alastravam como fogo e faziam o chão vibrar.

A amoladora fez menção de pegar a faca de volta. Ela gritou:

– Não se mexa! – barulho de internet discada.

A amoladora continuou o seu movimento. Ela colocou o dedo no gatilho. O som de mil tiros foi cuspido pela fronteira. 

– Espere! – silêncio.

Ela continuou com a arma erguida, pronta para atirar.

Um cão enorme e magricelo saiu correndo de dentro da escuridão e avançou sobre ela. Num rápido reflexo, ela pressionou o gatilho, acertando-o ainda no ar. A fronteira riu. O animal, agora com parte da mandíbula destruída, ergueu-se para retomar o ataque. Ela pressionou novamente o gatilho. 

Não tinha mais munição.

Antes que pudesse pensar em qualquer coisa, a amoladora pulou sobre o cachorro e desferiu o golpe final com a faca que segurava. A briga tinha som de cachoeira do lado de lá da fronteira.

Elas se olharam.

– Temos jantar – e voltou a amolar facas.

* * *

Não sabia se um dia inteiro já havia se passado. Desde que o Sol abandonara o Céu, ela havia perdido a noção do tempo. O que sabia era que, não importava qual caminho seguisse, o som continuava a adquirir presença, como se ela estivesse inevitavelmente se aproximando dele. E não importava qual caminho seguisse. Tentou retornar indo na direção contrária, para distanciar-se do som, mas este parecia ficar cada vez mais próximo. Não importava a direção que ela fosse. Não conseguia mais saber se aquele era o caminho que percorrera antes.

Aquelas ruas eram como labirintos. Há quanto tempo ela não avistava um horizonte?

* * *

Tudo estava preparado. A amoladora de facas improvisou uma mochila igual à dela, amarrada ao seu corpo, levando consigo todas as lâminas que amolara. 

Ela havia ficado responsável pelos suprimentos: carnes e ossos de cachorro, galhos secos suficientes para uma pequena fogueira, roubaram toda a água da pessoa que dormia e duas doses da substância que usava para dormir (caso precisassem fingir de mortas). Além disso, levava o isqueiro sob os seios.

Deram-se as mãos. Aquele era menos um gesto de confiança e mais uma necessidade de saber a localização uma da outra, uma vez que cruzassem aquela linha.

Seus pensamentos fizeram o breu crepitar, sibilar, gritar, gargalhar, mastigar, tudo ao mesmo tempo. 

Atravessaram.

* * *

Ela viu alguém ao longe, ao lado de uma fogueira acesa. Estava de costas. Cerca de cinco esquinas a separavam da pessoa. Não tinha sido vista ainda. Apalpou o revólver sob os seios embaixo da jaqueta, anexado ao seu corpo por um elástico que dava a volta em seu tronco e cujas pontas encontravam-se em um nó sobre as costas. Parou duas esquinas mais perto e escondeu-se para observar. 

A pessoa tinha longos cabelos loiros. Seu rosto estava fora do campo de visão. Segurava uma enorme pá com as duas mãos, prestes a golpear algo que ela não conseguia enxergar. Mirava para baixo, como se a coisa fosse vir do chão.

Uma sirene estridente soou e era como se estivesse dentro da cabeça dela. Tapou os ouvidos, mas não adiantava. O alarme transformou-se numa batida ritmada, como um coração. O ritmo quebrou-se em pingos de chuva e dissolveu-se, como se a ventania tivesse levado o som embora. 

A pessoa largara a pá ao levar as mãos aos ouvidos. Ao cair no chão, o pesado objeto soou como uma explosão no mar. Era como se todo o bairro estivesse agora submergindo, ouvia ondas gigantescas como se elas quebrassem sobre as casas vazias e as destruíssem por completo. Teve dificuldade de respirar, como se aquelas vibrações não deixassem espaço para oxigênio na atmosfera. 

O tsunami agora transformava-se em cordas de violão.

* * *

Depois de um número de dias impossíveis de se contar – mesmo os ciclos da Lua não podiam mais ser usados pra se localizar no tempo, uma vez que Lua e estrelas também não apareciam mais no Céu –, deparou-se com uma rua muito larga, que devia ter sido uma rodovia anteriormente. Pensou que talvez fosse o caminho de ir embora daquele bairro abandonado. O som, no entanto, dava cada vez menos intervalos e metamorfoseava mais freneticamente à medida em que ela adentrava a rodovia. 

Mais à frente, a rua formava uma curva e sumia de vista. Daquele ponto em diante, os postes estavam destruídos ou não funcionavam. Desprendeu o revólver do seu corpo.

Caminhou devagar e virou a curva com a arma em mãos, dedo no gatilho. Seus passos soavam como caminhões cantando pneu. Virou a esquina. 

Todo o ruído sumiu como se tivesse sido sugado para dentro do chão. O silêncio, depois de tanto tempo naquela tempestade sonora, incomodava os tímpanos.

* * *

Os quarteirões desertos pareciam labirintos, as ruas espiralavam entre si, os passos dela ecoavam dentro das casas vazias. Anunciar sua chegada a preocupava. Realmente, parecia não haver ninguém no perímetro daquele bairro – mas, antes, lugares que aparentavam estar desabitados já esconderam emboscadas. Mesmo desértico, os postes daquele bairro ainda mantinham-se inteiros, alguns até acesos. Depois de tanto tempo correndo no escuro, ela nunca havia considerado a possibilidade de energia elétrica. Se houvesse mais alguém por perto, estar visível não era uma boa ideia. Parou de andar e agachou-se, desamarrando o pano que, amarrado às suas costas, imitava uma mochila. Abriu o tecido no chão e ele só não foi levado por causa do peso das coisas que carregava: um cantil vazio, retalhos de tecido escurecidos de sangue seco, um isqueiro, um despertador quebrado, um pedaço de carne enrolado em plástico (que, ainda assim, atraiu algumas moscas), uma revista National Geographic com a maioria das folhas rasgadas e um caderno grosso, intacto. Ela amarrou pedaços de tecidos em ambos os pés para abafar o som de seu caminhar. Ventava muito.

* * *

Ela percebeu que o primeiro som que ouvira quando chegara ao bairro era o reflexo que a fronteira dava ao amolar das facas. Aquele mero movimento gerava ecos agudos que incomodavam cada vez menos. Já eram parte da paisagem.

A que dormia não havia se movido em momento algum.

– Ela acredita que dá pra cruzar pelos sonhos. Sem o corpo físico, sabe? – riu consigo mesma e recebeu de volta um som de mastigação que durou mais que a sua fala – Não confio em ficar dormindo por aí, vulnerável. Os cães são tão famintos quanto nós. Se eu não estivesse aqui, essa dorminhoca já teria virado ração de cachorro faz tempo. Se a gente não faz eles de jantar, nós é que viramos o deles. Até aprenderam a escavar como toupeiras, andam por baixo da terra. Às vezes a fome é tanta que eu passo um dia inteiro na porta de um buraco de cachorro, esperando.

– E onde você consegue todas essas facas?

– Viajantes como você. Ninguém nunca volta. Sempre param aqui antes de atravessar, então eu acabo ganhando presentes. Ou a fronteira cospe de volta pra cá. Um desses aí – apontou pro revólver – nunca passou aqui. – Um som indescritível, como ouvir a digestão do predador de dentro do corpo da presa engolida – Ela tá sonhando de novo.

Aquele som perdurou por muitas horas. 

– Ela não acorda nunca?

– Só a vi levantar uma vez. Bebeu água, comeu uma coisinha. Não é muito de conversar. Ela tá muito bem abastecida, se preparou antes de chegar aqui. Acho um desperdício que passe dias em coma. Vai entender – continuava a amolar facas e era como se montanhas desabassem ao redor delas. – Não pretendo estar aqui quando ela acordar de novo.

Estava tão escuro que ela se perguntou se havia mesmo montanhas em algum lugar por perto.

* * *

Precisava comer e era como se o ronco de seu estômago soasse por todo lado. 

Encontrou uma casa com janelas de madeira, onde podia acender uma fogueira sem que a luminosidade fosse vista do lado de fora. 

Acendeu o fogo sobre alguns destroços e com as folhas da revista que carregava. O crepitar do fogo converteu-se em milhares de espadas sendo desembainhadas. Ela assou a carne de cachorro em estado de alerta, assombrada pela possibilidade de o fogo estar sendo ouvido por alguma criatura à espreita.

* * *

Abriram a boca para chamar uma à outra, mas dela saíram milhares de sons diferentes ao mesmo tempo: bebês chorando, passos correndo sobre a água, inspiração profunda, uma garganta regurgitando pedras, cimento percorrendo as vias sanguíneas, cachorros latindo, um piano despencando do décimo sétimo andar, unhas rasgando pedregulhos, gritos de pássaros gigantescos, farfalhar de folhas de madeira, mil ovos se chocando, serpentes sussurrando profecias que se dissolviam, palavras picotadas, sons de lembranças das duas, pás cavando o mar, sirenes soterradas, algo sinuoso penetrando a terra, lambidas dentro do ouvido, arrotos, uma cantora de ópera com autotune, multidões marchando, cachoeiras de lava evaporando, gritos guturais se desfazendo em pingos d’água, pés chutando superfícies viscosas, intestinos trabalhando, respirações obstruídas, locomotivas sendo engolidas por cavernas, vulcões em erupção, explosões submarinas, sonares de baleias, frequências que só morcegos conseguem ouvir, seu próprio coração batendo tão rápido que o som se tornava um único e contínuo grito.

A intenção das mãos dadas permanecia. No entanto, não havia mãos. Tentaram acionar o isqueiro para ver o que havia ao redor. Havia o calor do isqueiro e o som de uma explosão.

O tato ondulava, a visão vibrava, o cheiro surgia em graves e agudos. Escutavam as cores.

Era como se tivessem se tornado gigantescas, como se pudessem abraçar tudo num só movimento, mas estava tão escuro que não dava para saber a dimensão de nada. 

Diluíram-se ali. O silêncio não incomodava.

Ali não era escuro como era o escuro do outro lado da fronteira. Aquele lugar jamais havia sido abandonado. 

* * *

Quando dormia, sonhava sinfonias.


 

Natural de Sergipe e residente em Pernambuco, Anti Ribeiro é produtora sônica, educadora, curadora e pesquisadora. Seu trabalho tem enfoques na produção de trilhas e dramaturgias sonoras, sound design, composição de música eletrônica, curadoria em festivais audiovisuais e processos de pesquisa-educação baseados na oralidade. Trabalha pensando a chave curadoria-pesquisa-educação como um movimento indissociável, um desembocando no outro.