MOSTRA ESPECIAL | CURADORIA POR WALLY FALL

• COSMOPOÉTICAS DO (IN)VISÍVEL #2 •

Pontes de luz sobre mares revoltos

PROGRAMA #2
70' | LIVRE

Marronagem no cinema:

Pontes de luz sobre mares revoltos

 

Wally Fall

 

 

É o início de julho passado e o sol do meio da tarde é implacável. Enquanto discutimos com Laure a projeção que deve acontecer, em poucos dias, na grande praça que separa a prefeitura de Pointe-à-Pitre (Guadalupe) do Centre des Arts (em reforma há 12 anos!)[1], onde estamos, um camarada caminha em nossa direção com passo decidido e, ao se aproximar, me cumprimenta calorosamente. Seu rosto é familiar, mas não me lembro mais como nos conhecemos.  Ele, vendo que eu ainda estou tentando recordar, me diz, abrindo os olhos, como em uma revelação “No jwenn an lajòl la mann!” (Nós nos encontramos na prisão mann!). Isso mesmo! E ele continua “Você não imagina como os filmes que vocês nos mostraram abriram a minha mente!”. Estamos felizes em nos vermos de novo ali, do lado de fora, sob o sol forte. Ele também me pede notícias do “camarada que tem locks e que estava sempre comigo”. Ele me agradece mais uma vez pelo tempo que passamos juntos e pela nossa sinceridade, e me diz que o que fazemos é muito importante, então ele continua o seu caminho no mesmo passo decidido sem olhar para trás.

Esta cena aconteceu há várias semanas, mas, quando a Ana (Siqueira) me pediu para escrever um pequeno texto para acompanhar o meu programa no âmbito deste 23º FestCurtasBH, pensei imediatamente nestas poucas linhas que tinha rabiscado no dia seguinte ao encontro. Entre agosto de 2017 e o surto da Covid em nossas vidas no início de 2020, realizamos várias exibições mensais na prisão de Guadalupe, para mulheres e homens encarcerados, com pouquíssimas interrupções. Esta ação, iniciada por David “Dawuud” Cérito, um artista visual que era coordenador cultural da prisão naquela época e que tinha ouvido falar do nosso trabalho, foi uma das mais enriquecedoras que tive na programação de filmes com o nosso coletivo Cinémawon.

O nome do nosso coletivo é uma contração de “cinema” e “mawon”, que é uma crioulização da grafia de maron[2] relacionada à ideia de “marronage”. Nossa ideia inicial era criar ou reviver espaços e circuitos alternativos para permitir que filmes do Caribe, da África ou de outros espaços afro-diaspóricos (e feitos por cineastas locais) alcançassem públicos a quem eles haviam, até então, chegado muito pouco, se é que chegaram. E tínhamos a sensação de que esse público existia, mas que pouco esforço havia sido feito até então para que esses filmes e esse público se encontrassem fora das vias esperadas, embora a internet já oferecesse infinitas possibilidades se nos esforçássemos para isso. Alguns de nós começávamos a trabalhar nos nossos próprios filmes e a participar do jogo da seleção do festival e sentíamos que os filmes (os nossos e os de todos que nos interessavam) deviam ter uma vida também fora destes espaços para que houvesse um verdadeiro diálogo entre os cineastas, seus filmes e o nosso imaginário, por um lado, e entre histórias que às vezes são geograficamente distantes, bem como as realidades que descrevem, mas que, muitas vezes, ressoam umas nas outras. Pensamos que reunir, em um mesmo programa, filmes do Caribe (todo o Caribe, e não apenas das últimas colônias francesas), filmes do continente africano (todo o continente, e não só dos países francófonos) e filmes do Brasil ou da Colômbia constituiria uma afirmação muito importante para nós. E é isso que tentamos fazer desde o início, independentemente do contexto das nossas projeções, sejam públicas, na prisão ou na escola. 

  Para situar rapidamente o contexto particular das últimas colônias francesas nas quais operamos, é importante especificar que a oferta anual de filmes consiste em mais de 70% dos sucessos de bilheteria de Hollywood. Depois, há os filmes comerciais franceses e uma participação mínima para todo o resto do cinema mundial, independente ou não. Além de alguns festivais que oferecem uma lufada ar fresco de vez em quando. Na Martinica, Guadalupe e Guiana, um grupo martinicano detém o monopólio dos cinemas há mais de 50 anos. Na Ilha da Reunião, outro território francês no Oceano Índico, não são os mesmos atores, mas a divisão não é muito distinta. Basta dizer que tivemos de explicar muito a nossa abordagem ao nosso público do centro penitenciário, que às vezes nos perguntava por que não estávamos exibindo filmes reais como o último Velozes e Furiosos. A primeira vez que nos perguntaram, eu estava sozinho e a única analogia que encontrei foi que éramos como fabricantes de sucos naturais. Não temos nada contra quem prefere refrigerantes, mas preferimos vender sucos de frutas naturais que nós mesmos preparamos com frutas cultivadas sem fertilizantes químicos. Ou vendemos aqueles de irmãos e irmãs em quem nos reconhecemos. E então, o fato de nós mesmos fazermos filmes deve ter permitido que recebêssemos o benefício da dúvida e fôssemos ouvidos apesar de tudo.

O trabalho que faço no Cinemawon é, para mim, uma simples extensão do meu aprendizado e da minha prática como cineasta. Tudo está intimamente ligado. Como defensor de um cinema em que os pontos de vista e as histórias se situam, desde o início, à margem dos circuitos tradicionais de distribuição, ainda não posso me dar ao luxo de me contentar em tentar fazer filmes sem participar do esforço necessariamente coletivo para que as nossas histórias existam e circulem fora da lógica estritamente capitalista. Esta tarefa é maior do que eu, do que nós. E nunca foi questão para nós de simplesmente programar filmes feitos por pessoas negras ou em que vemos pessoas negras. Sempre houve uma exigência muito forte em termos do propósito e das questões políticas, espirituais, sociológicas e estéticas que estes filmes colocam sobre esse mundo que nos rodeia, a partir dos nossos respectivos espaços. Em última análise, trata-se de reposicionar nossas perspectivas no centro de nossas considerações, primeiramente para nós mesmos, mesmo que outros continuem a confiná-las a margens arbitrárias, sejam mercantis ou ideológicas.

 

No programa, que tive muito prazer em reunir aqui, procurei escolher filmes que nos permitissem captar, pelo menos em parte, a complexidade dos nossos pequenos espaços e, ao mesmo tempo, que abordassem questões estéticas, políticas ou espirituais em que me reconheço no momento. O único filme bastante convencional do programa é o documentário À la Racine, de Katia Café-Febrissy. É também aquele que aborda o tema do maior escândalo ecológico, político e de saúde que Guadalupe e Martinica já conheceram, do ponto de vista de uma mãe solteira que é agricultora. O que, sem dúvida, gosto em cada um desses filmes é que nenhum deles parece se sobrecarregar excessivamente de precaução semântica ou formal para dizer o que querem oferecer aos nossos sentidos. E gosto dessa liberdade também porque é contagiante. Neste diálogo entre Guadalupe, Martinica, Reunião e Togo, ninguém segue o mesmo caminho, mas cada um traça, de forma inegociável, formas próprias de abordar as nossas crenças, novos possíveis, de certo modo.

 

A ideia sempre foi construir pontes de luz acima de mares frequentemente revoltos, estando ao mesmo firmemente ancorados nos espaços que ocupamos. A ideia de marronagem e do quilombo, do acampamento Maron como um lugar de (re)construção longe da plantation, nos guia continuamente quando nos encontramos em uma encruzilhada, e a ideia de pan-africanismo também, quando dispomos os tijolos para construir as mesmas pontes que queremos que sejam de mão dupla com os outros. Acho que o questionamento de nossas crenças é um aspecto de nossa resistência que permanece relativamente inexplorado cinematograficamente pelos afrodescendentes, especialmente em lugares onde as religiões africanas não sobreviveram, ao contrário do Brasil, Haiti ou Cuba. Acabamos com peças de vários quebra-cabeças que se misturaram e que tornam muito complicado tentar reconstruí-los, quando existem essas tentativas. No cinema africano, Ousmane Sembène abordou esta questão frontalmente, nomeadamente, nos filmes Ceddo (1977) e Emitaï (1971), que foram revelações para mim. Essas questões, para nós, são tanto uma questão de pesquisa quanto de invenção. Alguns de nós, a cada dia mais numerosos, , tentam ainda possíveis combinações das peças do quebra-cabeça, continuando a olhar para o que está acontecendo ao redor. Ao fazer isso, nunca sabemos de antemão que combinação poderia semear a terra e, no mais absoluto silêncio, as sementes fecundas de imaginários descomplexados e horizontes multiplicados ao infinito. Mas não é essa a tarefa derradeira do artista, afinal? 

 

Wally Fall é um cineasta martinicano. É um dos fundadores do grupo de cinema Cinemawon, criado em 2016. Depois de muitos anos na Europa (França e Reino Unido), hoje mora em Guadalupe. Além de seus projetos pessoais, ele conduz oficinas em escolas e organiza projeções-debates, durante todo o ano, com Cinemawon.

 

 

Referência

RANDRIAMANANORO, Charlotte Rabesahala. Maronages dans l’océan Indien. Des Bemihimpa de Madagascar aux grands chefs marons de Bourbon-La Réunion. Travaux & documents, Université de La Réunion, Faculté des lettres et des sciences humaines, 2018, Regards croisés sur le patrimoine malgache: transmission et régénération d’un héritage vivant, p.91–111. https://hal.univ-reunion.fr/hal-02267914/document

 
 

[1]

Nota do autor: poucos dias antes, um grupo de artistas, em sua maioria filiados a um novo partido nacionalista e autonomista, iniciou uma ocupação simbólica do espaço do Centre des Arts para obrigar o poder público a não deixar a cultura em obras e a integrá-la às decisões que lhes dizem respeito. Nossa próxima exibição se inscreve no contexto dessa ocupação.

 

[2]

Nota do autor para a grafia em francês: “Maron” é escrito com um único “r” e “marone” com um único “n”. Esta escolha é ditada, antes de tudo, por uma atitude patrimonial, pois é assim que o termo é frequentemente transcrito em documentos antigos da época do fenômeno. Então, parece importante distingui-lo do fruto e da cor homônima. Finalmente, acreditamos que a adoção de uma grafia que leve em consideração a nova abordagem social da marronagem, que a valoriza, é justificada (Charlotte Rabesahala Randriamananoro).