• por Gabriel Nunes da Silva

SOBRE SONHOS, DESEJOS E RIMAS

Sobre os filmes MENINOS RIMAM de Lucas Nunes e PERIFERICU de Nay Mendl, Rosa Caldeira, Stheffany Fernanda e Vita Pereira


“Meninos Rimam” de Lucas Nunes (2019, 20 min) e “Perifericu” de Nay Mendl, Rosa Caldeira, Stheffany Fernanda e Vita Pereira (2019, 20 min) podem ser colocados como filmes muito parecidos: ambos falam sobre vidas negras, periféricas e LGBTQIA+, ambos se passam e são centrados na periferia, ambos terminam com poesias e, também, ambos não são dirigidos por homens brancos cis heterosexuais. E mesmo assim, apesar de tantas semelhanças, são dois filmes completamente diferentes.


Perifericu começa com uma das protagonistas, Luz, se dirigindo a nós com o pensamento: “Dizem que sonhar é a certeza que você está viva, e essa anda sendo a minha maior preocupação”. A personagem, interpretada por Vita Pereira, que também co-dirige o filme, nos recebe refletindo sobre sonhos e, sobre a ausência do sonhar. O filme acompanha a jornada de Luz e Denise do centro de São Paulo de volta para a Ilha do Bororé, região que é necessária uma balsa para se chegar. Ao longo do caminho, elas passam por uma série continua de violências que vidas pretas, travestis e lésbicas vivênciam todos os dias. Ao longo daquele dia, vamos com elas vender os bolos da mãe de Luz, primeiro pelo metrô, depois em uma batalha de rap. Até que o rápido lampejo de esperança, ofertado pelas rimas de uma das MCs, seja cortado por mais violência de uma abordagem policial.


Já no filme de Lucas Nunes conhecemos Arthur e Alexandre, dois adolescentes negros, amigos de infância. Um atraído pela câmera, o outro, pela rima. Em uma tarde, sozinhos no quarto, um deles pede conselho sobre “pegar uma mina” e, para “treinar”, eles se beijam. O curta segue com a estranheza gerada por esse encontro entre os amigos. Aquele beijo mudou tudo.


Quando estava assistindo a Meninos Rimam e o beijo aconteceu, eu pausei o filme, abri outra aba no navegador e busquei pela equipe, só então eu permiti que a reprodução continuasse. Eu, um homem negro cis bissexual, não posso assitir essa história ser contado por um homem branco hetero cis de novo. Eu não quero e eu não aguento mais. Como um espectador negro, assistir filmes é um ato de resistência, como diria Manthia Diawara (1988). Eu assisto a histórias como a de Meninos Rimam esperando a hora que eu vou ficar irritado. Mas isso não aconteceu dessa vez. O filme conduz uma narrativa sobre descoberta e desejo de uma forma sensível e cuidadosa. O desejo e a estranheza são articulados na narrativa da obra por meio da montagem, que intercala entre as imagens feitas pela câmera visível, dos meninos e, a câmera invisível, a que nos separa do filme. Essa passagem entre formas de olhar, brincam com as imagens como as rimas de Alexandre brincam com as palavras.


Perifericu também navega nos desejos, os desejos que nascem dos sonhos de se viver um “final de novela”. No sonho se pode imaginar um mundo onde vidas como de Luz e Denise, assim como de Arthur e Alexandre, importem, onde tantas violências não sejam realidade. É um filme sobre esperança. É sobre apesar de tudo estar contra nós, continuamos vivas/os/es, resistindo, existindo e sobrevivendo. E também, a retomada do controle das nossas próprias narrativas.


Esses dois filmes são um cinema rimado. Eles passem pelas imagens como poetas passeiam pelas palavras. São obras que trazem a margem para o centro. Constroem o protagonismo de vidas marginalizadas não só na frente das câmeras, mas também do outro lado delas. Uma vez que o cinema é uma construção coletiva, é necessário que todo o corpo da produção seja ocupado por corpos subalternizados para poder ser capaz de contar histórias que tenham compromisso político e cultural com as subjetividades que tentam reproduzir.


Nesses dois casos, vemos histórias que fazem esses movimentos. São obras que em momento algum alegam uma suposta neutralidade ou universalidade, mas se propõem a ocupar o espaço do imaginário do cinema para construir narrativas periféricas, negras e LGBTQIA+ preocupadas com os atravessamentos dessas existências e sua implicações no mundo. Elas produzem um diálogos de sentimentos, emoções e experiências, construídas e montadas em uma forma fílmica preocupada com as individualidades negadas pelo cinema hegemônico.


Nay Mendl, Rosa Caldeira, Stheffany Fernanda e Vita Pereira rejeitam o cinema hegemônico, e se lançam à busca pela reinvenção de imagens. De possibilidades de reconstrução de presentes e de futuros. Incorporando elementos como o rap/poesia na forma. O filme assim se constrói transgressor e único, pois nasce de um ponto de vista que busca uma “força revolucionária” (DIDI-HUBERMAN, 2016) que rompe com as convenções tradicionais dentro do meio. Enquanto Lucas Nunes opta por uma narrativa mais convencional para contar uma história já muitas vezes contada. Porém, ele elabora esse enredo partindo da vivências de corpos negros LGBTQIA+, assumindo aquele espaço de imaginação.


Um dos filmes opta por escancarar: uma personagem fala com você, nós vemos imagens do passado, a dureza do presente e lapsos do futuro. Já o outro escolhe o não dito: o olhar do desejo, a suavidade do toque, a desconfiança do ciúme. Em um, são pessoas trans e mulheres lésbicas atravessando a cidade para ocupar o centro. No outro, a perda da inocência e desabrochar do desejo de dois adolescentes. São filmes de estéticas diversas para contar histórias diversas. Mas, os filmes convergem no desejo de sonhar. Meninos Rimam e Perifericu fazem uma reivindicação de passado, presente e futuro de histórias pretas, LGBTQIA+ e de periferia.

REFERÊNCIAS

DIAWARA, Manthia. Black Spectatorship: Problems of Identification and Resistance, Screen, Volume 29, Issue 4, Autumn 1988, Pages 66–79.


DIDI-HUBERMAN, Georges. Remontar, remontagem (do tempo). In: Cadernos de leitura. Belo Horizonte: Chão da Feira, 2016.

este texto foi produzido como parte da Oficina Corpo Crítico – Experimentações Críticas por um Cinema Implicado, ministrado pela crítica Kênia Freitas, durante o 22º FestCurtasBH.