• por Egberto Santana

Cristalização de Brasília

Se a região do Planalto Central pode ser considerada um lugar imóvel, concreto, parado, tanto pelas suas características fisiológicas, quanto pelo seu ideal modificador da nação, visto que seus personagens ali presentes partem de burocracias iniciantes cujo fim quem vai dar cargo é o povo, o curta experimental A Cristalização de Brasília (Guerreiro do Divino Amor, 2019) rompe com essas barreiras duras e imóveis da nação. Mais do que um simples rompimento, Cristalização apresenta uma transformação de imagem, som e história, a fim de deslocar Brasília de um lugar comum.


Há um certo desprendimento nesse sentido, e ao mesmo tempo, uma frontalidade do que se propõe. Um jogo bem claro entre som e imagem que é apresentado logo de cara para quem assiste. O radical do som e a ruptura da imagem se entrelaçam num só ritmo, mas sem nunca desconectar de um sentido didático com ideal de situar o espectador na experiência.


Se não se pode dizer que Cristalização trabalha um viés documental tradicional, característico do acesso pessoal ao conteúdo histórico e do uso diretamente arquivos ou entrevistas, ele se coloca como um gênero desse meio por conta do nosso entendimento de Brasília. Parte daí a noção de um aprendizado a partir dos deslocamento de informações e edições na imagem.


É juntamente com esse aspecto didático que lembra uma aula do Telecurso 2000 que vem um efeito paródico do curta. Em um objeto cuja liberdade sempre foi disfarçada e os direitos comandados por pessoas distantes, ela é a lei de Cristalização. O ritmo é anárquico não pela sua linha temporal das coisas não ter uma regra, mas também pelo seu viés de um regimento autônomo dos objetos. A imaginação é o que faz sentido quando a própria ideia do real não tem mais como se adequar. Como objeto sendo Brasília, o filme pega elementos presentes na construção da cidade e fora dela, como por exemplo os candangos que construíram a região e a promessa de uma nova cidade nos discursos políticos e comerciais de lugares voltados para classe média, para preencher a tela com uma realidade que foi sendo negada durante anos, chegando naquilo que o diretor chama de “superficção” - ou aquilo que é realmente o real para quem está mexendo com as peças no momento.


A estrutura - ou a falta dela - é similar com em Mundo Mineral (Guerreiro do Divino Amor, 2020) este focado em Minas Gerais. O centro deste é nos discursos idealizados e apaixonantes de um local imaginário. Porém, se em Cristalização, a superficção de Guerreiro do Divino Amor dá laços na história e monta do jeito que bem entender, Mundo Mineral procura seu experimentalismo na atualidade, este sim muito mais próximo de um documental, ao encaixar as imagens em eventos reais, ainda que mantenha a ponta da edição radical no céu nublado de um evento empreendedor. A montagem dá conta da construção do imaginário proposto.


Não significa que Cristalização também não faça um movimento semelhante, e esse também seja significativo. A narradora-guia do novo mundo caminha por uma Esplanada dos Ministérios que parece desenhada e tirada do lugar. Os lugares em que Sallisa Rosa transita, ficam no limbo entre a realidade e o ficcional. Mas, justamente quando a imagem não podia nos deixar com dúvidas, ela coloca um incômodo por estar dentro da Esplanada, e pelas ignoradas ou mesmo a artificialidade dos engravatados “figurantes” - figuras que o curta escolhe não nomear - a sensação de incômodo fica com a gente pela distância da fala e do não pertencimento ao espaço.


Essa dicotomia que propõe uma distância do lugar estudado para quem enfim se chegue na ficção especulada do real é o que dá o tom do filme. Um ritmo que obedece uma desordem, cuja ordem no real já não dá mais para aceitar. É um grito que gera o deslocamento e cristaliza o espaço na forma das intervenções. É Brasília.

este texto foi produzido como parte da Oficina Corpo Crítico – Experimentações Críticas por um Cinema Implicado, ministrado pela crítica Kênia Freitas, durante o 22º FestCurtasBH.