• por Patrícia Bssa

Levitar, #sqn

A foto do template me chamou atenção pela incrível estética da película 18mm. Nela duas mulheres brancas jovens se banham e se tocam com intimidade e carinho. Integrante da competitiva internacional 3, “Mat et Les Gravitantes” (Pauline Penicote, 2019, 25’) nos conduz a uma oficina de auto ginecologia, onde acompanhamos às experiências de Mat, que integra o grupo e os registro desses auto reconhecimentos.


O exame ginecológico é uma das primeiras violências do corpo feminino, quando intervindas pelo bico de pato somos abertas ao meio para a visualização do colo do útero. Reunidas para o exercício de ressignificação do exame intra uterino, as jovens investigam os mecanismos e entendimentos sobre o “como” o exame é feito.


Acompanhando o agrupamento de emoções e expectativas da jovem Mat e das outras jovens, notamos as experiências e surpresas ao manusear e controlar as suas próprias inflexões anatômicas, variantes entre a luz, qualidade e enquadramento da captura, forjando naturalidade à um tema tão distinto na vida de cada mulher.


A narrativa nos envolve a pensar as diferenças desses femininos exposto, e que muitas mulheres nunca vivenciaram tal experiência por conta do medo das violências e do abuso ginecológicos. Revelando aquela ação como estratégia de fomento e afirmação de segurança da intimidade da mulher.


Por todo o mundo mulheres se colocam a reconstruir o ser mulher diante de interrogativas, como: para quais mulheres é garantido esse autocuidado e esmiuçamento delicado? A ausência de uma mulher negra e o tom romântico de condução da narrativa, delineiam um recorte importante para entendermos a diferença de urgências e acesso entre mulheres.


Na “corrida com lobos” pelo autoconhecimento, a mulher branca invade-se numa busca belíssima sobre ver o seu corpo, remonta um clima intimo Nan Godim neo hippie feminista que parece mesmo aconchegante para alguém que tem as mesmas caracteristicas e está aberta a uma experiência, sem entender que não há como ultrapassar as diferenças.


“Lanternas para ver cólons rosas”, “bico de pato de acrílico transparente”... foi explicando a um amigo gay a experiência sobre o filme, que percebi que a minha experiência de mulher negra não alcançava tamanha abstração, e que apesar da bela fotografia inicial, brancas se amando na tela fortalecem somente suas autoestimas e redes de relação, confiança e afeto. E assim, (re)volto a pensar que a nós mulheres negras, cabe o papel de mantermo-nos ausentes dessa farsa do amor feminino colonial, e viver e ensinar às nossas meninas pretas o autocuidado e a luta pelos seus bem víveres.

 

este texto foi produzido como parte da Oficina Corpo Crítico – Experimentações Críticas por um Cinema Implicado, ministrado pela crítica Kênia Freitas, durante o 22º FestCurtasBH.