• por Manu Zilveti

Los Niños Lobo

Em Los Niños Lobo (Otávio Almeida, 2020), os irmãos Alejandro e Vismán são filmados o mais de perto possível, não em ângulos fechados, mas por uma câmera que quase toca suas peles, revelando marcas que brotam nas faces destes meninos. As cenas acontecem quase sempre em dias nublados, em que a luz branca e cinza termina por desbotar as roupas sem cor e as paredes descascadas da casa que os garotos habitam. Há um jogo de opostos estabelecido no filme que escolhe filmar o pai de longe e os filhos de perto. Se a filmagem se aproxima e cerca os meninos de tal maneira, que por vezes eles mal conseguem evitar de devolver o olhar para a câmera, o pai por outro lado, vai ficando cada vez mais longe no quadro ao longo do filme, sem nunca emitir uma só palavra.


Outros jogos são colocados em cena, silêncio e verborragia são intercalados de modo que extensos diálogos entre os garotos, contando em primeira pessoa, histórias de extrema violência de uma guerra que não viveram, se alternam com cenas em que o silêncio sujeita o ambiente familiar de pai e filhos. Se na narrativa fala-se da brutalidade da guerra, no gesto dos personagens violência se enlaça com afeto. Histórias de assassinato são contadas enquanto os irmãos riem e se abraçam.


O silêncio paralisa as fisionomias, não há respostas para as perguntas, resta a angústia. “Então se nascemos por que vamos morrer se já estamos vivos?”, a criança pergunta, mas o pai se cala. Onde se ausenta a conversa resta a repetição dos gestos, que se elaboram nas encenações de guerra de Alejandro e Vismán. Se não há respostas, se estabelecem mais perguntas. “Porque havendo tanta gente, tinha que ser meu irmão o traidor?


A guerra que cala o pai é a mesma que permeia o imaginário e dá voz aos filhos. Há um abismo que a violência criou entre pai e o resto do mundo, mas há também uma busca de ressignificação dessa dor através das encenações dos filhos. A dor de ser traído por seu próprio irmão é consumada em tela na cena final do filme. Nela os irmãos dramatizam o momento de violência e morte com a cautela para realmente não se ferirem. No entanto é no momento mais catártico da cena em que Vismán enforca Alejandro, que a câmera vacila e desvia o olhar. Diversas vezes os meninos denunciam a encenação e olham rapidamente para câmera, pedindo sua permissão para seguir. Mas a câmera teme, incerta de seus gestos, ela também se cala.


O filme anuncia ou alarga estes abismos?

este texto foi produzido como parte da Oficina Corpo Crítico – Experimentações Críticas por um Cinema Implicado, ministrado pela crítica Kênia Freitas, durante o 22º FestCurtasBH.