• por Patrícia Bssa

FIOS

Durante as mostras do 22º FestcurtasBH, a farta oferta de filmes nacionais e internacionais criaram uma trama importante para pensarmos correlações, orientadas magistralmente na oficina que sintetizo neste texto, imprescindível para a decolonização dos olhares e a enunciação no registro de nossas etnias, neste contemporâneo.


No Brasil contemporaneo, negros e índios em constante sobrevivência de seus corpos trazem o esmiuçamento da formação de um tempo que constituido pelo registro e recontagem de suas histórias, apresentadas nestas representações. Em “Enraizadas” (Gabriele Roza e Juliana Nascimento, 2019, 14’), integrante da competitiva Brasil 1, uma estética afro futurista se aglutina, complexifica e traz a luz a ‘amarração” dos nossos cabelos/destinos. Já em “Mãtãnãg”, A encantada (Shawara Maxakali e Charles Bicalho, 2019,14‘), integrante da competitiva Brasil 3, produzido na comunidade Maxakali de Aldeia Verde, nos conta uma história tradicional da comunidade em que a Encantada desafia as fronteiras da vida e da morte para seguir com o marido morto rumo a cidade dos espíritos.


Os cabelos tecem a relação entre os dois filmes apresentando formatos e estratégia de sobrevivência da história de mulheres que tramam seus destinos nos cabelos alheios, perfazendo presenças e afirmando culturas e histórias dos seus povos e tradições. Os espiritos yamiy vivem entranhados nos cabelos das pessoas, enquanto na história dos povos negros os cabelos guardavam sementes e orientações cardinais, preparo para fugas e libertações.


Riqueza técnica singular da animação as referências visuais originárias das pinturas dos Maxakali emocionam pela grandeza dos detalhes e qualidade dos desenhos, assim como os grafismos, geometrias e cores utilizadas na cenografia e figurino de “Enraizados”. Estéticas sonora primazes em trilhas-linguagem, a fala do tambor sagrado para as duas etnias dá velocidade e ritmo à narrativa.


Em luta pela não extinção das suas principais relações com o sagrado e com preservação de suas memórias ancestrais sobre o fazer e culto às divindade, negros e indigenas tem cosmogonias com base nos elementos da natureza, seus ciclos e organicidades. A história de vida de Jussara é uma saga contemporânea de afirmação da tradição, assim como a caminhada da Encantada até o cumprimento do seu desejo final.


Matemáticas e geografias nas terras que caminhamos, esses povos originários tem a floresta em regimento pelo divino. No cálculo de cada gomo de cabelo a coordenada para viver as experiências sobre a única parte do nosso corpo que não se desintegra fora dele. Nos cabelos, fios que permeiam cabeças de seres humanos, existem enredos e escutas complexas, além das conjunturas estéticas e ancestrais.


Dirigido por mulheres, os filmes contam com a sensibilidade e representação de corpos femininos destemidos e questionadores, revolucionário eu diria pela potência da personagens. Gabriela Roza e Juliana Nascimento compõem uma fotografia barroca com intervenções digitais que atualizam e reconfiguram a estética das tranças e os movimentos que ela proporciona na vida de quem trança e é trançado. Enquanto Shawara Maxakali, constrói com rigor a composição da lenda para a animação, operando relações sobre a vida da mulher indigena, as tradições de sua comunidade e o direito de encantar-se.

este texto foi produzido como parte da Oficina Corpo Crítico – Experimentações Críticas por um Cinema Implicado, ministrado pela crítica Kênia Freitas, durante o 22º FestCurtasBH.