• Coletivo

Correspondências críticas [3/4]

Neste exercício nos propomos a escrever

cartas, conscientes de que elas seriam

extraviadas, de modo a construir espaços e

diálogos intermediários destinados a alguém,

alguma coisa ou um recorte dessa comunidade

de cinema. Como escreve Vinciane Despret,

“cartas são um testemunho material de laços, e

elas fabricam laços um pouco excepcionais,

dado que são perenes e que cada leitura as

reativa”.


por Geo Abreu, Giuliana Zamprogno, Maria Sucar,

Fábio de Carvalho Penido, Luan Santos,

Luiz Fernando Rodolfo, Ingá e Fabio Rodrigues.





[carta 6]


Cara equipe do festival,


O FestCurtasBh deste ano tem sido muito diferente dos demais. Já faz alguns anos que acompanho o Festival e acho que posso dizer isso com alguma tranquilidade. Os filmes estão disponíveis online e são exibidos na sala de cinema somente no dia em que sairão da plataforma virtual, o que tem permitido que pessoas dos mais diversos lugares assistam aos filmes, ao mesmo tempo em que a experiência de se deparar com algo imprevisto ou inédito tem sido menos incidente. Ainda sinto que as salas estão mais vazias do que deveriam, mesmo com os protocolos. Talvez a comodidade de casa seja mais tentadora.


Mas ao mesmo tempo, algumas coisas parecem não mudar. O público do do Humberto Mauro continua incrivelmente diverso. Você consegue identificar rostos conhecidos, dos famosos “ratos de festival”, que sempre estão presentes e ao mesmo tempo pode escutar atrás de você alguém perguntando se o filme já acabou, sem entender que é uma sessão com vários filmes.


A lealdade é uma característica que aparece de forma tríplice: do público com a sala do Humberto Mauro, dos realizadores com o festival e do festival com a produção audiovisual, do Brasil, do mundo, mas principalmente de Minas.


Uma pena que os debates ainda não tenham se retomado presencialmente.


Bem, preciso ir. Logo começam outras sessões.



Com carinho,


alguém





*


[carta 10]



queridu leitore,


e se eu te dissesse que cinema vai muito além do formato longa metragem de ficção que nossa bagagem nos leva a naturalizar? você já pensou nisso? você já parou pra pensar que crescemos assistindo a obras estadunidenses e que existem constelações de possibilidades inteiras além desse recorte que limita nosso imaginário? que critérios esse repertório incrusta na gente? já se perguntou sobre como isso condiciona nossa experiência? e se nós tivéssemos crescido assistindo apenas a filmes japoneses, será que você ia achar os Avengeiros o suprassumo da sétima arte?


amigue, quantos filmes brasileiros você já viu? e eu não estou falando de produções da Globo. então como você pode dizer com tanta certeza que “filme brasileiro é tudo ruim”?

se eu te dissesse que é possível olhar para essa coisa disforme que chamamos cinema de outra forma, será que tu se disporia? se eu te convidasse a experimentar cada filme a partir de si mesmo ao invés de projetar um universo de regras pré concebidas nele, tu toparia? se eu te dissesse que é possível que as imagens sejam muito mais do que manda uma certa noção pobre e chula de “entretenimento”...e aí? isso moveria algo em ti? ou será que estou viajando?

existem filmes que o protagonista nem aparece, obras que colam imagens de diferentes lugares, existem filmes que nem imagem tem!

  • mas se esses filmes existem, onde eles estão? tem na netflix?

na verdade, tem vários deles de graça no Youtube. também posso te mandar links de alguns se te interessar. novas experiências estão mais próximas do que se imagina. há filmes de tudo quanto é forma, alguns feitos até mesmo no nosso Quintal.

 

este texto foi produzido como parte da oficina Corpo Crítico – Entre Políticas da Amizade e Ensaios da Traição, ministrada por Ingá e Fabio Rodrigues Filho, durante o 23º FestCurtasBH.