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Correspondências críticas [1/4]

Neste exercício nos propomos a escrever

cartas, conscientes de que elas seriam

extraviadas, de modo a construir espaços e

diálogos intermediários destinados a alguém,

alguma coisa ou um recorte dessa

comunidade de cinema. Como escreve

Vinciane Despret, “cartas são um testemunho

material de laços, e elas fabricam laços um

pouco excepcionais, dado que são perenes e

que cada leitura as reativa”.


por Geo Abreu, Giuliana Zamprogno, Maria Sucar,

Fábio de Carvalho Penido, Luan Santos,

Luiz Fernando Rodolfo, Ingá e Fabio Rodrigues.




[carta 1]


Querida Nica,


Tenho o costume de lembrar do que sonho quase toda noite. Lembro nos mínimos detalhes, lembro da sensação, às vezes até acordo sem saber se foi sonho. Lembro disso ser pauta na minha terapia uma vez, lembro também da psicóloga me falar que era curioso como eu contava os meus sonhos, como parecia que eu realmente tinha vivido tudo aquilo. Como assim "parecia''? Isso nunca fez sentido pra mim. Busquei outros que também vivessem seus sonhos, certa de que existem, pois não posso estar só nessa. Encontrei pessoas que sonham lucidamente, mas não é minha galera, eu não tenho mais lucidez em sonho do que tenho em carne e osso e nem sou Deus no país onírico, sou só eu.


Dito isso, não sei por onde começar a descrever a surpresa de assistir à Trava Minguante, Trava cheia. Te encontrei finalmente e agora respiro aliviada ao saber que não estou louca tanto quanto você também não está.


Não ficam muitos questionamentos depois do filme, acho que tudo se encaixa como num passeio onírico: Existem camadas de saudosismo, de coletividade e de si, principalmente. Gosto como tu cita teus amigos e pessoas queridas como parte importante desse processo, do teu processo, porque acredito que quando sonhamos, tudo e todos somos nós. E não é assim também na vida “real”? O filme é auto-referenciado, porque é teu sonho que compartilhamos, mas sinto que você assume a tênue linha que é quando acaba o “eu” e começa o “outro”. No fim, é em homenagem a eles que tu declara o curta, como quem sabe que neles existe tanto de você mesma quanto em si e vice versa.


De todas as tensões de limites, a que mais me encanta é justamente a das possibilidades de sonhar. Sinto que tua conversa traduz minha experiência de dupla vida, quando se assume o gosto pela mudança de um corpo que se manifesta como aquático. Tu, por si só, já se assume como essa tal, que se encontra em cachoeira, que mergulha, que sente o abraço da água que cai de cima, mas ainda quer tuas tetinhas saindo leite e teu ventre cheio de criaturas aquáticas. É uma dimensão de sonho que se mistura com realidade. É onírico porque abraça o fantástico dentro da realidade concreta, mas é real porque diz respeito a uma desejo que se faz latente quando acorda.


Ao acabar teu curta, ouvimos o cessar do som de água movimentada de recebemos um convite:


“Vamo dormir, beijos.”


Aceito o convite e hoje vou sonhar contigo.


Com muito carinho,

Criatura aérea.


*


[carta 6]




Observando os filmes disponíveis nas mostras, fico desenhando

linhas que atravessam de um filme a outro, formas onde consigo

delinear confluências e dissidências entre as obras. As curadorias,

menos que intenções a serem decodificadas, parecem desejar

preservar o segredo, mantendo os vínculos de modo que, como

em muitos dos filmes, o como continue em aberto, sendo espaço

de invenção, no limiar entre os códigos, as linguagens. O receio é

que os saltos sejam demasiado performativos, autorreferenciais.

Não são saltos atléticos, então concluo que continuo ensaiando

por outro motivo. Mas há também a sensação de que o tempo

está sempre em falta diante de uma atividade que deseja escutar

com devoção o tempo dos filmes.



Na vertigem do cinema, mando um abraço pra ti


10 de novembro de 2021

 

este texto foi produzido como parte da oficina Corpo Crítico – Entre Políticas da Amizade e Ensaios da Traição, ministrada por Ingá e Fabio Rodrigues Filho, durante o 23º FestCurtasBH.