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Desmobilizar para mobilizar

Sobre o programa 1 da mostra paralela Mundos em Colapso


Desde nova, o que mais me excitava era o poder que o cinema tem sobre nós. Uma sala escura, o telão branco, altivo, num plano mais alto que nós, a plateia... Ali o mundo se reduz no silêncio, sobressaindo por vezes os ruídos da sala, dos corpos, da máquina de projeção do filme, até a tela em branco se preencher.

O passar de minutos nesse espaço escuro é capaz de nos transportar em uma longa viagem para fora da nossa realidade ou nos trazer abruptamente para nosso lugar no mundo, nos submetendo a enfrentar e encontrar-nos com o factual para além dos limites da nossa existência, passando como flecha, nos dilacerando individualmente, para provocar ação.


E essa é a sensação que fica em mim, ao sair dessa sessão da mostra paralela Mundos em Colapso. Me senti desmobilizada de mim. Atravessada pela poética barroca dos curtas, cada um à sua maneira , nos convidam a pensar para além das narrativas ordinárias do cinema eurocentrado sobre os colapsos, nos fazendo mergulhar numa reflexão sobre os vários mundos colapsados e os mundos que "ainda não são nada" pois lhes foi tirado o direito de existir. Mundos esses que, ao assistir a seleção de curtas, acreditamos serem possibilidades de mundos capazes para manter viva a centelha de vida humana neste planeta.


Possíveis mundos que estão para existir baseados em sonhos delirantes, resgate ao sagrado de nós, como uma unidade pertencente ao planeta, mas sem nunca perder a memória dos tantos mundos colapsados que já foram, que já existiram.


O programa 1 da mostra, nos convida a desaguar no mundo para poder tatear esperança e vida no fim de um mundo.

 

Este texto foi produzido como parte da oficina Corpo Crítico 2022 – Um Braseiro: "Quando um muro separa, uma ponte une", ministrada por Ingá Patriota e Fabio Rodrigues Filho, durante o 24º FestCurtasBH.

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