SESSÃO ESPECIAL

• PREMIADOS •

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FRANÇA/ SENEGAL, 2020, 20’

SËR BI

OS TECIDOS BRANCOS

de Moly Kane

Melhor Filme da Competitiva Internacional

Júri composto por Adriano Garret, Julia Katharine e Kariny Martins

Diante da saturação física e mental provocada por mundos adoentados, quais imagens e sons são capazes de produzir frestas que nos apontem para além de um estado de anestesia? Como falar sobre dor e violência sem repisá-las, mantendo ao mesmo tempo um grau de complexidade e mistério? Nos diálogos que construíram a decisão deste júri, essas foram algumas questões que apareceram com força e que nos levaram a pensar, discutir, repensar e questionar o que estávamos vendo e ouvindo. O processo nos fez retornar inúmeras vezes aos filmes e a suas relações com o extracampo, verificando o que eles nos davam, mas também (e talvez principalmente) o que eles não nos davam. Chegamos então a uma obra que tem a desobediência como força motora, produzindo um circuito ambivalente que pendula entre o corpo emancipado e o corpo subjugado, a tradição e o seu rompimento, a palavra e o silêncio. Ao acompanharmos ao longo de um dia a caminhada de Zuzana, este “eu” indelegável, forja-se aos poucos uma comunidade entre público e personagem, culminando em um impenetrável olhar final. Por tudo isso, concedemos o prêmio de Melhor Filme da mostra Competitiva Internacional do 23º FestCurtasBH ao filme Les Tissus Blancs, de Moly Kane. 

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BELO HORIZONTE, 2021, 13’

PARA AS GERAÇÕES QUE VIERAM ANTES DE MIM

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de Filipe Bretas Lucas

Melhor Filme da Competitiva Minas

Júri composto por Denise da Costa, Gabriel Araújo, Graciela Guarani

“Uai, como é que poderíamos começar? Eu acho que a gente poderia começar com a minha história mesmo”.

Memória, comunidade, afeto, família, tempo. Foram esses temas recorrentes entre os filmes selecionados para a Competitiva Minas desta edição do FestCurtasBH. Nos parece que, em tempos de distopia pandêmica, onde perdemos muitos de nós e de nossas referências, tivemos ao mesmo tempo que lidar com uma temporalidade nunca antes experimentada na história. Espera, cuidado, pausa. Ao trazermos a memória, a reflexão sobre o tempo e a espera se fizeram verbo presente. Impossível não pensarmos no passado porque o futuro pareceu estar suspenso. Estava difícil fazer planos. Que tempo era esse em que estávamos vivendo? Sonhamos, contudo, com um tempo pós-pandêmico, onde tudo e todas as coisas seriam possíveis. Alguns de nós traçou planos, outros não conseguiram sonhar. Isso porque o agora nos impôs a espera e o luto. Seria a saída possível revirarmos nossos arquivos pessoais e ouvirmos nossas histórias? O que esteve em jogo em quase dois anos de pandemia? Muitas coisas. E entre elas, uma se impôs: a vida.

“Para as gerações que vieram antes de mim”, de Filipe Bretas Lucas, aposta numa espécie de ciclicidade quando escava, exibe e compartilha os arquivos de sua família. Isso está da foto que apresenta a família do pai do diretor, registro que dá o pontapé inicial ao curta, à imagem da matriarca dessa família, mulher negra de expressão firme que é homenageada na cena de encerramento da narrativa. Entre esses dois frames, nos são apresentados os fragmentos de uma busca que, mesmo fazendo-se pessoal, ressoa nas histórias compartilhadas por diversas famílias negras brasileiras. Nos arquivos estáticos e em movimento desse núcleo familiar, está em jogo uma família interracial de camada média que procurou dar à prole uma vida diferente daquela vivida pelo pai. Estão também as problemáticas de um país onde impera o mito da democracia racial, a aposta na educação como forma de burlar sistemas de precariedade e exclusão, os laços de afeto que constroem comunidades, o reconhecimento à pertença e a valorização de uma identidade pelo respeito e a reverência aos mais velhos.

No filme, o tempo parece seguir circularmente adiante, mas tendo sempre em vista o atrás, o que passou e os que vieram antes. Por essas razões, caras para vislumbrarmos possibilidades contemporâneas e futuras não só das obras audiovisuais, mas das próprias manifestações políticas que conformam ideias de coletividade, elegemos o curta de Filipe para o prêmio da Competitiva Minas. O mesmo concentra em si temas caros presentes em muitos dos filmes trazidos ao festival. E ainda nos lembra, com a generosa partilha dessa intimidade, a força de se abrir para o público. Tendo o tempo, um dos deuses mais bonitos, regido essa mostra, encerramos mais um ciclo onde a festa começa a ser uma possibilidade...

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MINAS GERAIS, 2021, 26’

YÃY TU NŨNÃHÃ PAYEXOP: ENCONTRO DE PAJÉS

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de Sueli Maxakali

Menção Honrosa da Competitiva Brasil

Júri composto por Claire LaSolle, Emmanuel Lefrant, Mariana Queen Nwabasili

Com uma temporalidade específica, o filme é um importante registro das formas culturais de resistência e sobrevivência indígenas à pandemia de COVID-19 no Brasil, que já matou mais de 600 mil pessoas e afetou camadas raciais e sociais da população brasileira de formas distintas.

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PARANÁ, 2020, 4’

VOCÊ JÁ TENTOU OLHAR NOS MEUS OLHOS?

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de Tiago Felipe

Melhor Filme da Competitiva Brasil

Júri composto por Claire LaSolle, Emmanuel Lefrant, Mariana Queen Nwabasili

A cinematografia e a locução compõem uma linguagem audiovisual que remete à objetivação dos corpos que pode ocorrer em determinadas relações sexuais, neste caso destacando quando isso pode acontecer em relações homossexuais entre homens negros, que historicamente têm seus corpos hipersexualizados. Os fragmentos de palavras ditas em voz mecânica servem para esquematizar a repetição dessas trocas. Essa estratégia verbal, semelhante a um enredo, é acoplada a magníficas fotografias em preto e branco para representar uma fragmentação exagerada e repetida dos corpos, e em que corpo e mente aparecem divididos. As fotos remetem também a ambientes de voyeurismo e sexo gay, como saunas e banheiros. Por meio de uma sugestiva e sensível construção cinematográfica que se contrapõe a qualquer exibicionismo, o filme propõe uma representação de uma "relação líquida". A duração do filme, uma velocidade relâmpago, é como um sexo rápido de 4 minutos. O que é, no entanto, desejado é um contato mais profundo, um simples contato visual, além do desejo físico. Articulando bem e com muito tato forma e conteúdo, o filme propõe uma forma inventiva e poética de questionar o desejo e a objetivação do outro em relações sexuais.

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OURO PRETO, 2021, 16’

ANO 2020

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de Coletivo Olhares (Im)Possíveis

Melhor Filme Eleito pelo Júri Popular

SESSÃO ESPECIAL | PREMIADOS
PREM | 79' | 16 ANOS

EXIBIÇÃO ON-LINE

16 de novembro (20h) a 17 de novembro (00h)
cineHumbertoMauro/MAIS