Meninos Rimam

Se até os anos 90 filmar era para poucos, no mundo pós-digital há cada vez mais crianças filmando e sendo filmadas. Este movimento de acessibilização mudou drasticamente o curso da relação de produção de imagem e indivíduos. Se nas famílias pretas e periféricas são escassos os registros da infância de nossos pais, tios e avós, processo descrito em Travessia (Safira Moreira, 2017), hoje se caminha para um momento de uma enorme acessibilidade e possibilidades de registro e de auto registro.


Em Meninos Rimam (Lucas Nunes, 2019), o cotidiano de Arthur (Gabriel Almeida) e Alexandre (Marcos Maciel) é revelado através de duas câmeras distintas, uma transparente na narrativa e outra opaca, forjada por uma câmera handycam, que simula ser operada pelos personagens do filme. Transparência e opacidade discursivas se misturam ao longo desta narrativa que reverencia o gesto de filmar. Arthur usa a handycam para gravar a si mesmo no espelho, dá zoom, enquadra e desloca este enquadramento, revelando o mundo ao seu redor. É a partir das imagens geradas por ele e seu modo de operar esta câmera que o filme revela o que se passa dentro de seu universo particular.


Se nesta câmera, que passa pelas mãos dos personagens, há um desprendimento de uma norma estética mais formalista, a câmera transparente, que rege por mais tempo a narrativa, segue, ou tenta seguir, as formalidades mais clássicas do cinema - fecha o plano para enfatizar o segredo, o medo e nervosismo de um toque entre os dois meninos e realiza um corte seco para um plano mais aberto quando os personagens são surpreendidos pela irmã caçula de Arthur. O filme se organiza intercalando estas duas encenações sem permitir que elas se confundam.


No entanto, apesar das diferenças visuais mais explícitas entre as duas câmeras, há movimentos correspondentes que confluem nessas duas construções de imagens. Ambas buscam elaborar e traduzir as imaterialidades deste menino, tanto no gesto, em que a câmera muitas vezes acompanha o olhar subjetivo de Arthur, mas também na narrativa, em que sua irmã caçula e avó são sempre deixadas fora de campo, talvez porque não interessem à Arthur incluí-las em seu cosmos.


A crueza de assumir na ficção este encanto pelo gesto de filmar, a descoberta dos movimentos e das possibilidades de expressão que elas oferecem, como por exemplo a de filmar um videoclipe, traça caminhos para dentro de um espaço de identificação de descoberta pessoal que atravessa Arthur e Alexandre. A sintetização destes movimentos se dá no final do filme quando Alexandre olha para a câmera e solta sua rima. Este plano final da narrativa se torna o primeiro do videoclipe, tantas vezes ensaiado ao longo da história. Na música a letra segue “Meninos choram, amam, sentem, cantam, e fazem o seu destino. Se afirmam, rimam e mentem, mas ainda são só meninos”. Enquanto as imagens feitas pela handycam se sobrepõem ritmicamente e os créditos sobem.

este texto foi produzido como parte da Oficina Corpo Crítico – Experimentações Críticas por um Cinema Implicado, ministrado pela crítica Kênia Freitas, durante o 22º FestCurtasBH.