• por Egberto Santana

As ocupações por moradia e o modus operandi repressor do Estado

Diálogos entre Videomemória e Rua Augusta, 1029


Videomemoria (Aiano Bemfica, Pedro Maia de Brito, 2020) e Rua Augusta, 1029 (Mirrah Iañez da Silva, 2019) partem de um lugar comum, ambos usam o recurso da câmera point of view (ponto de vista) ou de gravações do celular a fim de demonstrar a luta por terra da visão de dentro das famílias dos movimentos. O primeiro caso vem de Belo Horizonte, da ocupação Eliana Silva e o segundo foca no ato Abril Vermelho, onde 6 mil famílias ocuparam 18 prédios sem função social em São Paulo. É na articulação dessa forma que os filmes conseguem trazer a sensação de estar dentro daquele conflito de maneira brilhante.


A liberdade com que ambos usam tais elementos para comentar um denominador comum é distinta. Rua Augusta pega o caminho andando. Somos jogados a um pequeno espaço do prédio ocupado no momento do embate entre as famílias e a polícia. É de noite e a mal iluminação do prédio dificulta ainda mais o processo. E, ainda que tenhamos leves intervenções da documentarista Mirrah Iañez, a sua presença é de uma vaga câmera que transita pelo espaço corrido do prédio, enquanto as ordens dos líderes das famílias vão sendo ditas e a acontece uma confusão de estratégia em busca de um refúgio longe da repressão policial.


O uso do celular, única arma das famílias, é ferramenta primordial em situar os dois lados da guerra. O lado do Estado é sempre mostrado de forma distante e diminuta, ainda que sua ação de força seja demonstrada, as imagens procuram focar a dimensão de união e resistência dos trabalhadores, a partir dos seus gritos de guerra e formação de cordões para impedir o acesso da polícia.


Essas cenas de guerra para representar a disputa se dão, novamente, pelas armas usadas e os movimentos percorridos. Do lado de dentro, celulares, passos, cordões. De fora, algumas viaturas da polícia, as luzes da sirene e as palavras de ordem.


Rua Augusta ainda se destaca pelo modo desfocado e corrido que a diretora articula a câmera, justamente por estar no meio da ação. Seja nas ordens para subir até o topo do prédio, para conversar com a polícia ou mesmo para tentar sanar um garoto atingido por spray de pimenta, nossa visão é jogada para todos os lados ou distorcida. Nesse sentido, o prédio abandonado é ocupado pelas vozes, em sintonia com os corpos tentando resistir.


Na falta do prédio, as vozes se desfazem pelo terreno de Videomemoria. Esse construído com base numa certa omissão de acontecimentos, descrição de eventos num arco temporal que não obedece uma sequência, mas sim, como o próprio título explicita, a memória. Há ainda uma escolha estética em delimitar os avanços através de uma imagem limpa, e os embates sendo vistos em baixa definição.


O primeiro plano é uma visão de cima do que antes era ocupação, virando assentamento - e o segundo vem uma das integrantes do movimento relatando o evento catalisador numa mata sem nenhuma iluminação.


Acabam aí as diferenças com Rua Augusta. Como parte de um mesmo microcosmo, somos jogados para o ato de enfrentamento com a polícia. Saem as viaturas, entram os policiais posicionados com seus equipamentos do lado de fora do terreno, onde a câmera de celular dá conta de pegar toda a corporação, o advogado do movimento e a faixa do Eliane Silva. A voz por trás da tela descrevendo o cenário dá a entender ser de um dos envolvidos com a produção dirigida por Aiano Bemfica e Pedro Maia de Brito. De dentro da mata ocupada, entra a voz de um dos trabalhadores sem-teto reivindicando seus direitos e começando um grito de guerra: “ocupar, resistir e construir”. Uma frase que é definidora de Videomemoria e Rua Augusta, justamente pelas conquistas da ocupação demonstradas no fim do curta.


O descontrole característico de Rua Augusta também é notado aqui, mas na intenção de demonstrar o vazio terreno ocupado e o atropelamento da polícia no local. As vozes também são presentes e fica uma confusão não de foco, mas de entendimentos e discursos. Há ainda um rigor preciso no poder da câmera, sem nenhuma menção à quem a controla, zooms e movimentos decisivos são feitos no clímax da disputa. Um acaso controlado.


Outro ponto em comum entre os dois curtas são os diálogos, ou melhor, os falsos diálogos entre o Estado e as famílias. As falas parecem ser tiradas de um roteiro em virtude da semelhança tanto das respostas, quanto do momento. É como se os personagens dos documentários pudessem dar as mãos e concordar com os pensamentos. A polícia militar com a total ausência de um diálogo: “não me interessa quantas famílias estão aí,vocês vão sair de uma forma ou de outra”. Os manifestantes com o pleno conhecimento dos direitos: “essa terra não tinha uma função social, agora ela tem”.


Apesar dos três diretores dos dois curtas não estarem presentes dentro do movimento, terem passado um tempo com as famílias e possuírem um currículo envolvendo o tema das ocupações, há uma intenção muito clara em deixar as imagens falando por si só, nas mãos de quem está por dentro ou, no mínimo, do “como é” por dentro. Essa escolha não isenta a montagem da produção que também possui um senso narrativo dedicado em construir uma jornada de luta, resistência e conquista, a partir de imagens que representam cada um desses momentos.


Essa comunhão de imagens de arquivo, câmeras distorcidas, união e resistência resulta em imagens que ficam com a gente após o fim dos curtas. São manifestos, são ideias, discursos de um Estado que não age para mudar, nem para transformar e famílias que vivem na luta diariamente por um simples lugar para morar.

este texto foi produzido como parte da Oficina Corpo Crítico – Experimentações Críticas por um Cinema Implicado, ministrado pela crítica Kênia Freitas, durante o 22º FestCurtasBH.